quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Curvando o arco


Fresco na rocha,Tassili, Argélia 7,500 A.C.

"A mortalidade dos homens reside no facto de a vida individual,...,provir da vida biológica. Essa vida individual difere de todas as outras coisas pelo curso rectilíneo do seu movimento que, por assim dizer, intercepta o movimento circular da vida biológica. É isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha recta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico." Hannah Arendt in A Condição Humana


Procuro a relação entre percepção e mundo, procuro como quem caça...num ramo quebrado, na pégada imperceptivel, no cheiro do vento, na expectativa de compor uma representação feliz com minudências.

Cada um de nós constroi um modelo de percepção da realidade a partir do qual interage com ela: A nossa realidade não é "a realidade".

Quando fui para a Quinta do Monte Virgem comecei a saber os nomes das árvores, dos pássaros e dos animais ínfimos que habitam o solo, debaixo das folhas, entre as árvores que apodrecem, na terra cavada pela enxada. Às vezes mergulhava nesse mundo como se lhe pertencesse e isso chamou-me para o infinitamente pequeno. Comprei um microscópio. O mundo do microscópio desiludiu-me: Era como ir ao cinema, pior do que ir ao cinema, via um universo distante não estava nele. Estava do lado de cá a observar o lado de lá, era como observar a terra num planisfério. O mesmo se passou relativamente ao telescópio que comprei em saldos num supermercado.


Durante os nossos anos da Serra de Ossa quizemos curvar a nova vida. Sermos bichos de acordo com a natureza, lembro-me dos meus pesadelos de infância de estar debaixo da terra rodeado de animais repugnantes e como eles se foram convertendo em paz e húmus. Saber que a morte faz parte da vida é diferente de o sentir em cada dia e em cada estação do ano. No olhar do primeiro borrego que matei com a navalha recém afiada dissolvendo-se numa cavidade atrás da orelha. Na morte de todo o galinheiro feita por "saca-rabos" que deixaram todos os cadáveres intactos com excepção das marcas das garras no dorso das aves e o lugar nos pescoços onde lhes sugaram todo o sangue. Do fogo que destrui práticamente toda a floresta e o despontar dos primeiros rebentos nos jovens e negros sobreiros que cuidávamos mortos.

No estado de animalidade e de ausência de mundo em que viviamos aprendemos o refúgio nos territórios do espirito. A convivência com a morte e com a vida, sugeria-nos a contemplação da eternidade e o sítio onde viviamos inspirava-nos como tinha inspirado muitas gerações de monges que antes de nós tinham habitado aquela casa e tinham amanhado, muitas vezes ajardinado, aquelas terras. Hoje estamos na acção.

Para disparar uma seta é necessário dobrar o arco. Foi esta ideia e o texto da Arendt que cito como sub-titulo, que me inspirou na procura da relação entre e acção e a contemplação. Entre a seta e o arco. Entre a seta e o arco está a corda. A vida estará na tensão da corda?

terça-feira, 5 de maio de 2009

A La Minuta 1













Lendo a sina de Caravaggio


“puta de vida!”
Surpreendo-me com a dureza do tom. Duas mulheres conversam. A mais nova, bela, tem na cara as marcas que me lembram as mães da Quinta da Serra: sai de noite e chega à noite a casa, pensei.
É fim de tarde, apresso-me para a minha aula de Aristóteles, estamos na Ética a Nicómano:

“vida boa (felicidade) é a finalidade última da actividade humana”


Lisboa, Estação de Metro de Entrecampos, 19 de Fevereiro 2009


De Volta

Volto ao meu "o que estamos a fazer?". Volto a casa. Releio os posts antigos. Dou um salto ao "voz da quinta" se o "futuro é um presente melhorado" o que será o passado?

domingo, 21 de dezembro de 2008

Happy New Ear



Reproduzo o desejo de John Cage endereçado aos seus amigos, um desejo de renovação na forma de ouvir música, de ouvir.
Oxalá o novo ano nos traga um novo ouvido.
Um ouvido que nos permita ouvir o Outro:
- Não é precisamente a nossa surdez que o condena ao silêncio?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

"Passatges" o memorial a Walter Benjamin de Karavan



Costa Brava, fronteira catalã com a França, meio-dia solar.

Em 1940 um refugiado judeu alemão chega a Port-Bou. Confiando no seu salvo-conduto apresenta-se às autoridades espanholas. Destino: Lisboa e daí para os Estados Unidos da América. A polícia avisa-o que o documento perdeu validade mas dado o seu estado de saúde é lhe permitido que pernoite na cidade. No dia seguinte, o sujeito é encontrado morto no Hotel de Francia, hoje Casa Alejandro. Causa: ataque cardíaco devido a uma overdose de morfina. Nome: Walter Benjamin.



Escondida por trás da sepultura de Benjamin no cemitério de Port-Bou - para Hannah Arendt "um dos lugares mais belos que vi em toda a minha vida" - uma placa em plástico desbotado pelo tempo: nada, nem ninguém, esqueceremos. Assinado:Brigadas Internacionalistas Alemãs. Segue uma lista de cidades alemãs com nomes ilegíveis.



We live in our time and we carry our memories with us. It is in our time that they listened to Bach, to Mozart and to Beethoven; read Goethe and Schiller; enjoyed Dürer, Leonardo and MichaelAngelo. Then, they closed the doors and turned the gas on. (...)

I cannot afford to be pessimistic.

My dream is Peace and Tolerance and I hope that those who have similar dreams will wake when a new dawn will rise and our dream will become reality. I know it will not come by itself. I know that we will have to fight for it.

Dani Karavan

L'Artiste et la Société Congrés mondial sur la condition de l'artiste
16 Juin 1997

Dani Karavan é o autor de Passatges o monumento dedicado a Walter Benjamin em Port-Bou. Passagens é também o nome da magnum opus de Benjamin: Paris Capitale du XIXe Siécle - Le Livre des Passages. Uma obra inacabada.



quinta-feira, 10 de julho de 2008

lefebvre 1972 - 1

Henri LefebvreThe (social) production of space

Lefebvre has dedicated a great deal of his philosophical writings to understanding the importance of (the production of) space in what he called the reproduction of social relations of production. This idea is the central argument in the book The Survival of Capitalism, written as a sort of prelude to La production de l’espace (1974) (The Production of Space). These works have deeply influenced current urban theory, mainly within human geography, as seen in the current work of authors such as David Harvey and Edward Soja. Lefebvre is widely recognized as a Marxist thinker who was responsible for widening considerably the scope of Marxist theory, embracing everyday life and the contemporary meanings and implications of the ever expanding reach of the urban in the western world throughout the 20th century. The generalization of industry, and its relation to cities (which is treated in La pensée marxiste et la ville), The Right to the City and The Urban Revolution were all themes of Lefebvre's writings in the late 1960s, which was concerned, amongst other aspects, with the deep transformation of "the city" into "the urban" which culminated in its omni-presence (the "complete urbanization of society").

In his book The Urban Question (translated into English very early, in contrast with Lefebvre's works), Manuel Castells heavily criticizes Lefebvre's theoretical arguments contained in the books published in the 1960s about the contemporary city from a Marxist standpoint. Castells' criticisms of Lefebvre's subjective approach to Marxism echoed the Structuralist school of Louis Althusser, of which Lefebvre was an early critic. Many responses to Castells are provided in The Survival of Capitalism, and some may argue that the acceptance of those critiques in the academic world would be a motive for Lefebvre's effort in writing the long and theoretically dense The Production of Space.

In The Production of Space, Lefebvre contends that there are different levels of space, from very crude, natural space ('absolute space') to more complex spatialities whose significance is socially produced ('social space').[9]

Lefebvre's argument in The Production of Space is that space is a social product, or a complex social construction (based on values, and the social production of meanings) which affects spatial practices and perceptions. As a Marxist philosopher (but highly critical of the economicist structuralism that dominated the academic discourse in his period), Lefebvre argues that this social production of urban space is fundamental to the reproduction of society, hence of capitalism itself. Therefore, the notion of hegemony as proposed by Antonio Gramsci is used as a reference to show how the social production of space is commanded by a hegemonic class as a tool to reproduce its dominance.

"Social space is a social product - the space produced in a certain manner serves as a tool of thought and action. It is not only a means of production but also a means of control, and hence of domination/power."

Lefebvre argued that every society - and therefore every mode of production - produces a certain space, its own space. The city of the ancient world cannot be understood as a simple agglomeration of people and things in space - it had its own spatial practice, making its own space (which was suitable for itself - Lefebvre argues that the intellectual climate of the city in the ancient world was very much related to the social production of its spatiality). Then if every society produces its own space, any "social existence" aspiring to be or declaring itself to be real, but not producing its own space, would be a strange entity, a very peculiar abstraction incapable of escaping the ideological or even cultural spheres. Based on this argument, Lefebvre criticized Soviet urban planners, on the basis that they failed to produce a socialist space, having just reproduced the modernist model of urban design (interventions on physical space, which were insufficient to grasp social space) and applied it onto that context:

"Change life! Change Society! These ideas lose completely their meaning without producing an appropriate space. A lesson to be learned from soviet constructivists from the 1920s and 30s, and of their failure, is that new social relations demand a new space, and vice-versa."

WIKIPEDIA

lefebvre 1972 - 2